quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Vendaval

Qual vendaval que extrai 
Do chão a árvore mais expansiva 
Que sem marcas de idade
Entre murmúrios de irrealidade
Numa sonoridade alusiva 
De um sentir que se desvai

E sem perceber a razão
Deste vento que leva tudo
Numa fria realidade
Entre a crua impiedade
Levando num som mudo
A própria alma em coração

E assim penteia as encostas
E molda a sua passagem
Um mundo ao seu prazer
Mas quem poderia dizer
Que tal tormenta era aragem 
E de sentimentos eram compostas

As ventanias que me abalam 
E que tiram de mim sentido
E sem dar pelos acontecimentos
As brisas viram tormentos
E tudo fica despido
Nas correntes que embalam.

Embalam o arvoredo  
Num embalar sem igual
E quem diria que era vento
Esse que em ressentimento
Colocou um final
A este louco enredo.

H.N


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Grandes obras de poesia cantadas: Quase perfeito



Sabe bem ter-te por perto
Sabe bem tudo tão certo
Sabe bem quando te espero
Sabe bem beber quem quero

Quase que não chegava
A tempo de me deliciar
Quase que não chegava
A horas de te abraçar
Quase que não recebia
A prenda prometida
Quase que não devia
Existir tal companhia

Não me lembras o céu
Nem nada que se pareça
Não me lembras a lua
Nem nada que se escureça
Se um dia me sinto nua
Tomara que a terra estremeça
Que a minha boca na tua
Eu confesso não sai da cabeça

Se um beijo é quase perfeito
Perdidos num rio sem leito
Que dirá se o tempo nos der
O tempo a que temos direito

Se um dia um anjo fizer
A seta bater-te no peito
Se um dia o diabo quiser
Faremos o crime perfeito

Miguel A. Majer

Perfume de sonho



No perfume de um sonho
Que repete a cada hora
Que não devo desistir
Procurando minha aurora

No desafio que se mostra
Tão altivo e tão imponente
Devo usar minhas forças
Para lavrar o presente

Para chegar aos objetivos
Mais simples e mais complexos
Tenho de usar minha luz
Essa que se vê entre os reflexos

Para chegar ao teu lado
Tenho de ser forte e seguir
Num caminho esburacado
Onde ainda posso cair

Mas quem luta consegue
E quem sonha vive em pleno
Pois sem sonhos é sobreviver
E em tristeza só veneno

Cada queda uma lição
Cada pedra um patamar
Que nos permite seguir
Que nos permite amar

Dos sonhos não desistas
Das metas não te apartes
Usa tudo o que tens
Do engenho á própria arte 

H.N

Cruel abandono


E neste abandono escuro
Tão negro, tão solitário
Que faz de mim folha solta
Ao vento mais inseguro
Num poder temerário 
Que se move á minha volta

Numa cruel persistência de só
Numa janela fechada e escura
Onde escondo meu corpo sem dó
Numa premunição de sólida lonjura

E tão só estou em mim
E tão só me entrego ao inconsequente
E neste deserção do manhã
Faço de um suspiro o fim
De uma boca que me mente
Numa promessa frágil e vã

E assim tudo me deixa
Jogado num persistir de desaparecer
Sem ter em conta essa queixa
Aos poucos sinto o desvanecer

De meu corpo em transparente
De teu toque no querer
Deste abandono penitente.

H.N

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sentimento invertido


Cada vez que amanhece 
Há esperanças lançadas ao vento
Num sentimento invertido
Que se mistura com o sentimento
De um dia ter pedido
O regresso do calor sem tormento
E sem pensar ter ouvido
Persente-se o alheamento

Num seguir que fica imóvel
Numa mudança de eloquência
Que sem saber da loucura
Faz pensar que a ciência 
Pode medir a lonjura
De quem troca em vivência
Matizes de amargura
E sentimentos de ausência 

E nesta procura de mim
E neste encontrar de alguém
Faz ver que em fim
Não maltratei ninguém. 

H.N

Números


Números, esses números loucos
Que vêm e vão da minha mão
Quem os consegue deter
Esse que sem se saber
Fogem do nosso cartão
Deixando tudo vazio aos poucos

Esses que alteram o querer
Manipulam a vontade
E sem poder fugir
Fazem-te chorar e rir
De tristeza ou saudade
De um dia os vires a ter

A quem tanto número tenha
Quem nem sabe que fazer
A tanta cifra acumulada
Mas na solidão da estrada
Se encontram num perder
De uma falta de amor embalada

E assim são as frações
Cruéis como só cobre
Que não preenchem corações
Nem fazem-te mais nobre.

H.N


Nova escravidão


E nesta inesperada escravidão
De quem é forçado a continuar
Apegado a coisas vãs e terrenas
As quais não me deixam amar

Numa prisão com grades de cristal
Das riquezas diversas sem suporte
Que não me deixam fugir daqui
Nem me deixam falar com a morte

É sentença sem julgamento
Que me condena e me dilacera 
Em corrente de aço e dor

Arrancando de mim o sentimento
De quem não verá primavera 
Nem sentirá mais o calor

H.N